Estamos trabalhando para você

A ficção e o crime



A ficção é uma violência que abre, que permite um ajuste diferencial com a diversidade dos tempos e interesses.

Luiz Costa Lima, em Narrativa e ficção.



A dramaturgia do Estamos trabalhando para você partiu do universo temático que envolvia a pergunta: Qual é o seu crime? Baseado neste ponto de partida, propus a experimentação cênica de contos meus relacionados às narrativas produzidas pelos próprios atores. Essa segunda experiência foi despertada durante a disciplina de “Dramaturgia em Composição”, que lecionei em diálogo constante com as disciplinas de “Interpretação”, “Cenografia” e “Trilha Sonora”, há um ano atrás, onde os alunos puderam passar pelo processo de composição seus próprios roteiros cênicos. Neste sentido, a dramaturgia passou a ser entendida não apenas como o lugar das textualidades da cena, mas também como o modo de organizações de ações e como uma ferramenta manipulada pela prática de um ator criador. Atrelada a essa prática, também pudemos investigar o processo da edição de materiais temáticos recolhidos a partir de percursos por locais públicos e privados, pesquisa essa que continuo aprofundando hoje. Arrematando a construção das cenas, optei por apresentar cada universo como retratos, contos ou quadros inter-dependentes, que apresentassem uma unidade de sentido e comunicação em si com o espectador, mas que fossem ao mesmo tempo conectadas temporalmente, espacialmente, ou tematicamente a outras cenas. Isto dentro de uma lógica de uma dramaturgia de paralelismos e bifurcações, de acordo com as leituras do livro de Rubens Rewald, Caos dramaturgia.

Seguindo esse caminho, à medida em que nos indagávamos sobre o tema, começamos a identificar o crime, como uma metáfora do sujeito mergulhado em suas relações cotidianas e de trabalho. Assim, nasceu o olhar crítico e irônico do espetáculo sobre a institucionalização e o condicionamento que moram dentro e fora de nós: o trabalho estafante do escritório e das máquinas burocráticas falidas, o trabalho informal da rua, a rotina tediosa dos apartamentos de classe média, o crime das filas intermináveis, o crime da alienação da televisão e da obsessão pela ditadura da magreza e da beleza, o crime da patroa e da doméstica em conflito de seus status sociais, a realidade marginal, festiva e violenta dos morros e dos pagodes, o desejo de se romper o condicionamento dos sistemas virtuais, o universo do assassinato, da acusação e do julgamento contra o preconceito e o medo de morrer de doença e de solidão...

A linguagem do espetáculo busca uma relação direta com os espectadores, inserindo-os na trama ficcional e explora a acidez dos discursos dos personagens para se discutir como as relações humanas se dão atualmente.

De tudo, persiste o desejo de não esquecermos o poético, o patético, o humano e o ético dos personagens e dos lugares, que podem se mostrar extraordinárias aos olhos de quem se permite olhar e perceber o entorno, sob uma ótica inusitada. Do trágico ao irônico, buscamos a arte de se cometer o crime ou (seria a vida?) nossa de cada dia...

 
Dedico este trabalho à Alice, meu eclipse de todo dia e ao Lenine, anjo negro que faz do teatro um oásis no deserto.

 
Letícia Andrade.

Dezembro de 2008.

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